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domingo, 28 de maio de 2023

Their Endgame

Third to last:

It’s no longer “the threat from China.” This new candidate for the Republican primary (which for the last six elections and for the foreseeable future is synonymous with “Presidential election”) says loud and clear that Jesus, personally, ordered him to “cleanse the entire Earth with the fire of Freedom” and promised that, once His will was made, He’d personally descend from Heaven to protect His flock and establish His reign.

He narrowly loses the nomination.

Next to last:

He tries again. He wins. But, along his first term, he is blocked from actually firing missiles.

Last:

Second term. (Presidential primaries in years 8n+4 are mere formalities.) It took this long to stack the courts and the armed forces with people aligned to the Cause. Also, the midterms helped. That scene from “Dead Zone” becomes reality.

Post-last:

Before the Cleansing, a 3-by-2-mile flat slab had been carved on the side of a mountain range. The letters are 1,500 ft tall, 100 ft deep into the rock. It says:

THE RIGHTEOUS, UNDER OUR LORD JESUS CHRIST, HAVE VANQUISHED EVIL AND NOW INHABIT THE KINGDOM OF HEAVEN, WHILE THE WICKED BURN IN HELL.

Post-post-last:

An asteroid, roughly the size of what was once called Iceland, hits the Earth. And finally, at long last, the far right stops lying.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

O Retorno da Calúnia de Sangue


(Por Paul Krugman; traduzido do New York Times. Os artigos referenciados por links estão em inglês.)

A velocidade do declínio moral dos Estados Unidos sob Donald Trump é de tirar o fôlego. Em questão de meses, deixamos de ser uma nação que promove a vida, a liberdade e a busca da felicidade, e passamos a ser uma nação que arranca crianças dos pais e as coloca em jaulas.

Quase tão notável a respeito desse mergulho no barbarismo é o fato de que ele não é uma resposta a um problema de verdade. O influxo em massa de assassinos e estupradores sobre o qual Trump fala, a onda de crimes cometidos por imigrantes neste país (e, na mente dele, por refugiados na Alemanha), são coisas que simplesmente não estão acontecendo. São puras fantasias doentias, usadas para justificar atrocidades reais.

Sabe o que isso me lembra? A história do antissemitismo, um conto de preconceito alimentado por mitos e invenções que acabou em genocídio.

Em primeiro lugar, falemos a respeito da imigração para os EUA nos tempos atuais, e comparemos com essas fantasias doentias.

Existe um debate entre economistas, altamente técnico, sobre a influência de imigrantes de baixa escolaridade — se ela exerce ou não um efeito de redução salarial sobre trabalhadores nativos de escolaridade igualmente baixa. (A maioria dos pesquisadores acha que não, mas há algumas discordâncias.) Mas esse debate não tem nenhuma influência nas políticas de Trump.

O que essas políticas refletem, sim, é uma visão do "Massacre Americano", de grandes cidades tomadas por hordas de imigrantes violentos. E essa visão não tem qualquer relação com a realidade.

Para começar, não obstante uma pequena subida desde 2014, os números do crime violento nos EUA estão em baixas históricas — a taxa de homicídios está nos mesmos níveis do início dos anos 60. (Na Alemanha, a propósito, as taxas de crime também estão historicamente baixas.) O tal "massacre" de que Trump fala só existe na imaginação dele.

É verdade que existe uma correlação entre crime violento e incidência de imigrantes não registrados — mas é uma correlação negativa. Ou seja, lugares onde há muitos imigrantes, sejam legalizados ou não, tendem a ter taxas de crime excepcionalmente baixas. O exemplo mais flagrande desse "desmassacre" é a maior cidade de todas: Nova Iorque, onde mais de um terço da população nasceu no estrangeiro, e o número de imigrantes irregulares provavelmente chega a meio milhão — lá, o crime está reduzido a níveis nunca vistos desde os anos 50.

O que não deveria ser surpresa, já que os dados de condenações criminais mostram que imigrantes — legais ou não — tem uma probabilidade significativamente menor de cometer crimes do que a população nativa.

Portanto, o governo Trump aterroriza famílias e crianças, abandonando todos os critérios de decência e humanidade, como resposta a uma crise que nem sequer existe.

De onde vem esse medo e ódio a imigrantes? Muito disso parece ser medo do desconhecido: os estados mais anti-imigração parecem ser aqueles onde quase não há imigrantes, como a Virgínia Ocidental.

Mas esse ódio virulento não é uma coisa de "caipiras ignorantes". O próprio Trump é, claro, um nova-iorquino rico, e muito do financiamento de grupos anti-imigração vem de fundações controladas por bilionários de direita. Por que pessoas ricas e bem-sucedidas odeiam imigrantes? Volta e meia me pego pensando em Lou Dobbs (N. do T.: âncora e comentarista de TV, atualmente na Fox Business), de quem eu gostava no início dos anos 2000, mas que se tornou um anti-imigracionista raivoso (e íntimo de Donald Trump) e atualmente fala de um "complô pró-imigração dos lobistas de Washington".

Não sei o que impulsiona essas pessoas. Mas já vi esse filme antes, na história do antissemitismo.

O X da questão do antissemitismo é que nunca foi sobre algo que judeus tenham realmente feito. Sempre foi sobre lendas escabrosas, frequentemente baseadas em mentiras deliberadas, sistematicamente espalhadas para fabricar ódio.

Por exemplo, durante séculos pessoas têm repetido a "calúnia de sangue" — a alegação de que judeus sacrificavam crianças cristãs como parte do ritual de Pessach.

No início do século 20, foi maciçamente disseminado um texto chamado "Os Protocolos dos Sábios do Sião", que detalhava um suposto plano de dominação mundial por parte dos judeus, e que provavelmente foi redigido pela polícia secreta da Rússia czarista. (A História se repete, primeiro como tragédia e depois como mais tragédia.)

Esse documento falso foi amplamente divulgado nos EUA graças a ninguém menos do que Henry Ford, um antissemita virulento que encomendou a publicação e distribuição de meio milhão de cópias da tradução em inglês, cujo título era "O Judeu Internacional". Mais tarde, Ford se retratou por ter publicado uma falsificação, mas o estrago estava feito.

Mais uma vez, por que alguém como Henry Ford — não apenas rico, mas um dos homens mais admirados do seu tempo — escolheria um caminho desses? Não sei. Essas coisas simplesmente acontecem.

De um jeito ou de outro, o que é importante entender é: as atrocidades que nosso país está cometendo não são uma reação exagerada ou equivocada a algum problema que precisa ser resolvido. Não existe crise de imigração. Não existe crise de criminalidade de imigrantes.

A verdadeira crise é a onda de ódio — um ódio irracional, sem qualquer relação com algo feito pelos seus alvos. Qualquer um que justifique esse ódio — por exemplo, com um argumento do tipo "ambos os lados" — está, em essência, defendendo crimes contra a humanidade.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Lembram da Reserva de Mercado em Informática?

Basileu Xilóforo, que sabe das coisas, lembra. O texto não foi tirado do blog dele, e sim do Orkut. Como textos em comunidades do Orkut são, digamos, voláteis, estou preservando as considerações do nobre colega aqui:
Como o assunto tem muitos antecedentes, conseqüências e ramificações, vou começar pela observação postada pelo recente “visitante”, deixando o resto para possíveis perguntas.
Fernando Collor, por exemplo - apesar de ter feito muitas coisas maravilhosas por nosso país, como acabar com o protecionismo no mercado de informática, que me permite usar um computador Core 2 Duo, em vez de um COBRA 0,5 microprocessador
A frase, mesmo curta, contém vários enganos gritantes. Para começar, relembra um argumento comum do PIG da época, usado para sensibilizar a classe média: o de que os microcomputadores vendidos no Brasil eram caros por causa da reserva de mercado, e deixaram de sê-lo quando Collor “acabou com a reserva”. Uma década depois, argumento similar seria usado para justificar a privatização das empresas de telecomunicações, procurando-se convencer o público de que os telefones, principalmente os celulares, eram poucos e caros porque as empresas do setor eram estatais.

Para começar, reserva de mercado e protecionismo não são a mesma coisa. O protecionismo existiu durante muito tempo para a maioria dos setores industriais, principalmente na forma de elevados impostos de importação e, em alguns casos, de proibição pura simples de importação de determinados produtos. A finalidade dele, em parte, era proteger indústrias instaladas no Brasil, mesmo em setores que eram praticamente dominados por multinacionais, como os setores automobilístico e eletro-eletrônico. Uma conseqüência positiva era a preservação do emprego nesses setores, mas, como sempre acontece, a conta era paga pelo consumidor, na forma de produtos mais caros do que os equivalentes alhures. Em parte, por outro lado, o protecionismo, contribuindo para reprimir as importações, ajudava a equilibrar as contas externas.

A principal ação do governo Collor, quanto a isso, foi baixar os impostos de importação, na maioria das áreas. O objetivo era combater a inflação, que se tinha tornado um problema maior que o desequilíbrio das contas externas. Quanto a estas, a aposta do governo Collor foi que não se desequilibrariam ainda mais, com a demanda por importações sendo limitada pela recessão trazida pelo Plano Collor. De fato, a dívida externa não disparou, mas a inflação também não foi contida.

A reserva de mercado em Informática ia além do protecionismo convencional. O conceito era de que não bastava proteger a indústria instalada no Brasil, mas era preciso proteger especialmente a tecnologia nacional, abrindo empregos não apenas de mão-de-obra operária, mas também ampliando as oportunidades para a engenharia nacional. Quando a reserva foi implantada, no início do governo Geisel, procurou-se aproveitar as lições aprendidas com sucessos então recentes nos setores de aeronáutica e telecomunicações (assuntos que também são interessantes, mas em que não vou me alongar no momento).

O agente inicial da reserva era a CAPRE, antecessor remoto da atual SEPIN (Secretaria de Política de Informática), hoje no MCT, mas, naquela época, no Ministério do Planejamento. Além das taxas de importação, que existiam para todos os setores da economia, a CAPRE devia aprovar as importações de bens de Informática e, para isso, estabeleceu regras que, em alguns setores, não permitiam a concorrência de produtos importados com aqueles produzidos no Brasil. Além nisso, nesses setores, as indústrias protegidas não eram aquelas simplesmente instaladas no Brasil, mas aquelas com controle de capital nacional. Os insumos, como placas e componentes, também deveriam ter a importação aprovada pela CAPRE.

A reserva funcionava de maneiras diferentes para diferentes setores. Os computadores de grande porte (mainframes) não estavam incluídos, e continuaram a ser vendidos normalmente. O setor onde ela teve mais repercussão foi o de minicomputadores, que, naquela época, ocupavam o espaço atual dos servidores de médio porte (considerando-se que as redes, na época, eram rudimentares). Nesse, além da reserva para empresas de controle nacional, a CAPRE controlava os contratos de transferência de tecnologia. A COBRA, empresa de controle estatal, foi autorizada a contratar tecnologia inglesa para computadores de controle de processos, destinados inicialmente a uso militar, e desenvolveu uma linha de computadores de uso comercial, baseada em tecnologia desenvolvida em universidades (o hardware na Poli-USP e o software na Informática da PUC do Rio). Três empresas privadas foram autorizadas a licenciarem tecnologia estrangeira. Note-se que essa categoria de computadores estava, em qualquer parte do mundo, acima da faixa de preço dos computadores pessoais, e era usada por empresas.

O caso dos microcomputadores era outro (lembrando, a propósito, que microprocessador é apenas o componente principal, não só dos microcomputadores, mas também de controladores embutidos, isto é, usados dentro de outros equipamentos e sistemas de qualquer natureza). Durante os anos 70, principalmente a partir da segunda metade, os microcomputadores de uso pessoal usavam microprocessadores de 8 bits, como os antigos Apple, Atari e Amiga. A montagem de um microcomputador desses estava ao alcance do hobbista individual, e, de fato, no Brasil como no resto do mundo, alguns desses hobbistas acabaram fundando empresas fabricantes de microcomputadores. Já nos anos 80 os microcomputadores de 16 bits passaram a dominar tanto o mercado de uso pessoal como parte do mercado de uso profissional. A restrição principal que a reserva de mercado impunha era de que esse setor era reservado para empresas de controle nacional, mas, não havendo necessidade de licenciamento de tecnologia de hardware, podia entrar no mercado qualquer empresa que satisfizesse a essa restrição. E, de fato, em poucos anos um número considerável de empresas nacionais entrou nesse segmento.

Os preços relativamente elevados em relação ao mercado internacional, no setor de microcomputadores, portanto, não decorriam de falta de competição no setor, mas do protecionismo que vigorava também em muitos outros setores, como o automobilístico, aberto às multinacionais e que, por sinal, recebeu alguns dos impropérios mais ruidosos do Collor. Decorriam, principalmente, das elevadas taxas de importação sobre os insumos do setor.

Quando Collor reduziu as taxas de importação e eliminou a reserva para empresas de controle nacional, já enfraquecida no governo Sarney, ela já tinha cumprido boa parte de seus objetivos de fortalecer a tecnologia nacional da área. Tanto é assim, que algumas das empresas que se desenvolveram à sombra da reserva continuam bem, obrigado. A COBRA, hoje controlada pelo Banco do Brasil, continua ativa. Meu laptop atual é da Itautec, uma das líderes do mercado de microcomputadores na época da reserva. Algumas empresas dos setores de sistemas embutidos, como controladores de sistemas de telecomunicações e de automação industrial, para as quais a reserva foi essencial inicialmente, sofreram mais com outros problemas de economia do que propriamente com o fim da reserva, nos anos 90. Algumas se associaram com multinacionais, mas o desenvolvimento de tecnologia no Brasil continua. As próprias multinacionais da área, como a Google e a IBM, passaram a ter divisões importantes de desenvolvimento no Brasil, coisa que não acontecia antes da reserva.

E esse sempre foi, pelo menos no entendimento de quem participou desse processo como integrante da comunidade acadêmica, o objetivo da reserva de mercado: abrir um espaço para a tecnologia, ou seja, para a inteligência nacional. O espaço para o capital nacional foi apenas um meio, não um fim.