Há trinta anos, completava-se a destruição de
Sete Quedas, alagada para a construção da
Usina Hidrelétrica de Itaipu.
Na época, Luís Fernando Veríssimo escreveu esta crônica. Lê-la foi como levar um soco na boca do estômago.
(Obrigado à Larissa, da
comunidade LFV do Orkut, pela transcrição, e ao Lisias Toledo da turma retrocomputeira pelo
scan.)
As Águas
Começou numa banheira na península do lago, em Brasília.
Uma
senhora do primeiro escalão enchera uma banheira para um banho de
espumas - era véspera de feriado nacional - e, quando fechou a torneira,
a água não parou de jorrar. Quando o bombeiro chegou a água já alagara o
banheiro e o quarto do ministro. E continuou a jorrar, apesar de todas
as frenéticas providências do bombeiro. Invadiu a parte social do
casarão. Empapou os carpetes. Passou para a rua. Correu para o lago.
O ministro só ficou sabendo quando chegou em casa e viu sua poltrona predileta, seus chinelos e seu cachorro boiando no jardim.
O que estava acontecendo?
* * *
No
segundo dia, enquanto a água ainda jorrava misteriosamente da torneira
do ministro, num apartamento de Brasília alguém pediu um pouco de água
de sifão no seu uísque. O mordomo apertou a válvula do sifão. Saiu um
jato tão forte que derrubou o copo de uísque. O sifão pulou da mão do
mordomo.
Não parava mais de jorrar água do sifão. O sifão rodopiava
no chão como um buscapé, espirrando água para todos os lados. As pessoas
tiveram que fugir do apartamento alagado.E a água foi atrás. Escorreu
pelas escadas. Ganhou a rua. Dirigiu-se, como um rio, para o lago. E o
sifão rodopiando, expelindo água. Galões e galões de água gaseificada
saíam da pequena garrafa.
Inexplicavelmente.
* * *
No terceiro dia,
em outra casa da península do lago - enquanto a primeira torneira ainda
jorrava e o sifão ainda cuspia água para todos os lados - as pessoas
notaram que as paredes começavam a ruir. Primeiro foi só a umidade, coisa
rara em Brasília. Depois gotas. Finalmente, torrentes de água descendo
pelas paredes. A água acumulava-se no chão, corria para a rua, depois
para o lago. Em pouco tempo a própria casa - uma mansão, embora do
segundo escalão - foi erguida das suas fundações pelas águas e carregada
para o lago, sob o olhar atônito dos seus ocupantes.
E ninguém sabia por quê.
* * *
No
quarto dia - enquanto a torneira jorrava e o sifão rodopiava e das
fundações da terceira casa brotava água aos borbotões - a notícia já se
espalhara por todo o país e as explicações apareceram. Era óbvio que
Brasília fora construída sobre um insuspeitado lençol de água que, por
alguma razão, começava a aflorar. Mas como se explicava o sifão? E a
torneira que continuava a jorrar mesmo sem água nos canos? E por que foi
que naquele quarto dia a própria caixa d'água do Palácio começou a
vazar, e a água a escorrer pelas paredes executivas, e a correr para a
rua, e para o lago?
Ninguém sabia por quê. E veio o pânico.
* * *
No
quinto dia - a torneira jorrando, o sifão golfando, a vertente
borbotando, a caixa d'água transbordando - havia terror em Brasília.
Ninguém ousava tomar banho ou abrir uma torneira ou uma garrafa. As
autoridades advertiam: ninguém toque em água até que tudo se esclareça.
Ninguém faça buracos no chão. Ninguém assoe o nariz. Ninguém urine.
Ninguém... Mas um jardineiro, que não sabia de nada, foi visto
encaminhando-se para a chave que fazia funcionar os dezessete
"sprinklers" que regavam um gramado ministerial.
Antes que pudesse ser detido - "Meu Deus, segurem ele!" - acionou a chave.
E dezessete vulcões de água eruptiram no chão de Brasília. E as águas correram para o lago.
* * *
-
Sete Quedas... - disse alguém sombriamente, no aeroporto, esperando uma
desistência num dos vôos lotados que partiam para lugares mais secos.
- Como, Sete Quedas?
-
Você não vê? O lago está subindo. Recebe água de cinco novas
vertentes. Uma por dia. Faltam duas. Em uma semana o lago cobrirá
Brasília. Como o lago de Itaipu cobriu as Sete Quedas.
- Bobagem.
- Retribuição...
E foi ver se seu nome estava mesmo na lista de espera.
* * *
No
sexto dia, do centro da Catedral, como de um poço de petróleo, saiu um
jorro de água que subiu quinhentos metros. Começou a evacuação da
cidade.
* * *
Um profeta passeia de caiaque por entre as antenas de televisão, na peninsula submersa.
- Limpem, águas. Limpem tudo. Lavem a alma da república!
E as águas subindo.
* * *
No
sétimo dia correram lágrimas dos olhos de bronze do Juscelino. Era a
sétima vertente. Em pouco tempo o lago cobriu tudo. Equipes de
salvamento ainda tentaram resgatar alguma coisa da fauna do lugar que não fugira a
tempo. Um repórter político e um lobista foram encontrados agarrados ao
corpo inchado de um cavalo que flutuava, e salvos. O chapéu do Brossard
desapareceu num redemoinho.
* * *
Só os dois edifícios do Congresso ficaram de fora, como as chaminés de um navio afundado.